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A seleção que se apurou para o Mundial 2026 goleando 9-1 com Cristiano Ronaldo suspenso — e o dilema que Roberto Martínez vai enfrentar no dia 17 de junho
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A seleção que se apurou para o Mundial 2026 goleando 9-1 com Cristiano Ronaldo suspenso — e o dilema que Roberto Martínez vai enfrentar no dia 17 de junho

Estádio do Dragão, Porto. 16 de novembro de 2025, domingo à noite. Sexta jornada do Grupo F do apuramento europeu para o Mundial 2026. Portugal recebia a Arménia.

· Leitura de 9 min

Estádio do Dragão, Porto. 16 de novembro de 2025, domingo à noite. Sexta jornada do Grupo F do apuramento europeu para o Mundial 2026. Portugal recebia a Arménia.

No relvado, onze jogadores portugueses com camisola número 7 diferente da habitual. A camisola 7 estava nas bancadas, vestida por um Cristiano Ronaldo suspenso por vermelho direto, visto três dias antes contra a República da Irlanda em Dublin por uma cotovelada nas costas de Dara O’Shea.

Portugal ganhou 9-1.

João Neves fez um hat-trick. Bruno Fernandes fez outro. Rafael Leão marcou. Gonçalo Ramos marcou. Os nove golos portugueses distribuíram-se por seis jogadores diferentes — nenhum deles chamado Cristiano.

No final, Ronaldo publicou no X um post que tinha apenas sete palavras: “Estamos no Mundial. Vamos com tudo, Portugal.”

Era tecnicamente uma celebração do apuramento. Mas foi também a reação mais curta de Ronaldo a qualquer grande feito da Seleção Nacional em mais de uma década.

Três meses depois, em janeiro de 2026, o seleccionador Roberto Martínez deu uma entrevista à beIN Sports. Sobre o lugar de Ronaldo no onze inicial do Mundial, disse uma frase que a imprensa portuguesa passou os dias seguintes a desmontar: “Avaliamo-lo da mesma forma que a todos os outros.”

Não há lugares garantidos. Nem para quem tem 143 golos pela seleção.


O apuramento que terminou a 16 de novembro

Portugal entrou no Grupo F do apuramento europeu como cabeça de série, ao lado da Hungria, da República da Irlanda e da Arménia.

A campanha foi limpa durante quatro jornadas. Vitórias contra a Arménia (5-0 em Erevan), a Hungria (3-2 em casa), a Irlanda (1-0 em Dublin) e a Hungria novamente (2-2 em Budapeste, jogo em que Ronaldo marcou os dois golos).

Faltavam duas jornadas. Bastava uma vitória em qualquer delas para garantir o primeiro lugar e o apuramento direto.

Quinta-feira, 13 de novembro. Estádio Aviva, Dublin. Portugal perdeu 2-0.

Aos 60 minutos, Ronaldo estava atrás de O’Shea numa disputa na grande área. O empurrão do irlandês irritou o português, que reagiu com uma cotovelada nas costas do defesa. O árbitro sueco Glenn Nyberg mostrou amarelo inicialmente, mas o VAR chamou-o ao monitor. A decisão foi corrigida — vermelho direto. A primeira expulsão da carreira de Cristiano Ronaldo ao serviço de Portugal, em 226 internacionalizações.

A expulsão custou-lhe o jogo de domingo contra a Arménia. E podia custar-lhe mais — o disciplinar da FIFA tinha a possibilidade de aplicar entre um e três jogos de suspensão, dependendo do enquadramento. Se fosse considerada “conduta violenta”, seriam três.

Durante quatro dias, entre o jogo de Dublin e o de domingo no Dragão, Portugal viveu uma dúvida muito concreta — a seleção pode funcionar sem Cristiano Ronaldo?

Aos 90 minutos de domingo à noite, a resposta era 9-1. E Ronaldo via do sofá.


A conversa que a Seleção Nacional tem evitado há uma década

Cristiano Ronaldo faz 41 anos em fevereiro. No Mundial 2026, em junho, terá exatamente 41 anos e quatro meses.

Mais velho, em qualquer Mundial anterior, só existiu Essam El-Hadary, o guarda-redes egípcio que entrou em campo aos 45 anos na Rússia 2018. Fora da posição de guarda-redes, Ronaldo será o jogador de campo mais velho da história dos Mundiais.

Ele já sabe. Todos sabem. Mas em Portugal, a conversa sobre “o que fazer com o Cristiano” tem um peso que nenhum outro país com uma estrela a envelhecer teve que carregar.

É que Ronaldo não é apenas o máximo goleador da história da seleção portuguesa. É o máximo goleador da história do futebol masculino de seleções — 143 golos em 226 jogos é um número que nenhum jogador, em qualquer país, alguma vez se aproximou. Antes dele, o líder histórico era Ali Daei, do Irão, com 109 golos. Ronaldo deixou Daei no espelho retrovisor há cinco anos.

Se Portugal jogar o seu primeiro jogo do Mundial 2026 a 17 de junho sem Cristiano Ronaldo no onze inicial, será a primeira vez em 22 anos — desde o Euro 2004, quando um Ronaldo de 19 anos ainda era suplente de Luís Figo e Pauleta.

Vinte e dois anos. Quase metade da história da Seleção Nacional moderna.


Martínez e o problema que herdou

Roberto Martínez é espanhol, catalão. Pegou em Portugal em janeiro de 2023, pouco depois da saída de Fernando Santos, depois da eliminação nos quartos do Qatar contra Marrocos.

No Mundial 2022, Santos tinha deixado Ronaldo no banco contra a Suíça nos oitavos de final. Portugal ganhou 6-1, Gonçalo Ramos fez um hat-trick como titular. A semana seguinte foi um dos maiores dramas extra-campo de que há memória na seleção. Ronaldo entrou no jogo dos quartos de final contra Marrocos. Portugal perdeu 1-0.

Santos saiu. Martínez entrou. E herdou uma herança pesada — Ronaldo tinha 38 anos, ainda queria jogar tudo, e era simultaneamente o maior ativo e o maior problema táctico da equipa.

Martínez nunca tentou resolver a questão abertamente. Desde 2023, Ronaldo foi titular em praticamente todos os jogos que pôde jogar. Marcou, mas não tanto como antes — 5 golos nos 5 jogos em que esteve presente no apuramento para 2026 (o que lhe permitiu reforçar o estatuto de máximo goleador de sempre em fases de qualificação para Mundiais, com 41 golos no total).

Em compensação, a seleção tornou-se mais produtiva sem ele. Os dois maiores resultados do mandato de Martínez — 9-0 ao Luxemburgo em setembro de 2023, pelo apuramento para o Euro 2024, e 9-1 à Arménia em novembro de 2025 — foram ambos feitos com Ronaldo ausente.

O antigo internacional luxemburguês Maxime Chanot, que jogou a central na derrota por 9-0 em 2023, contou depois, no programa After Foot da RMC: ao sofrer o sexto golo, pediu a Diogo Jota — o jogador do Liverpool que morreu em julho de 2025 num acidente de viação em Espanha — que tentasse acalmar os colegas. A resposta de Jota, segundo Chanot, foi:

“É o único jogo sem o Cristiano, temos de mostrar que podemos jogar sem ele.”


O Grupo K

No sorteio de 5 de dezembro de 2025, em Washington D.C., Portugal caiu no Grupo K. Como cabeça de série, o sorteio podia ter sido pior. Ficou com:

  • Colômbia (FIFA 14): uma seleção com James Rodríguez (Minnesota United, 34 anos, capitão), Luis Díaz (Bayern de Munique), Luis Suárez (o colombiano do Sporting, não o uruguaio) e Richard Ríos (Benfica);
  • Uzbequistão (FIFA 59): pela primeira vez num Mundial, um país de 36 milhões de habitantes a leste do Cazaquistão que vai chegar a jogar um jogo a sério nos Estados Unidos;
  • RD Congo (FIFA 51): os Leopardos voltam ao Mundial pela primeira vez desde 1974, após um golo aos 119 minutos do suplente Axel Tuanzebe contra a Jamaica, em Guadalajara, no play-off intercontinental.

Portugal é favorito a terminar em primeiro. A Opta dá-lhe 58,4% de probabilidade de vencer o grupo. Mas a pegada no grupo é diferente daquela que a seleção teve em 2022 e em 2018 — a Colômbia é uma equipa dura, e o Uzbequistão e a RD Congo são seleções sem história mas com jogadores espalhados por Europa que não aparecem em nenhum scouting report regular.

Primeiro jogo: 17 de junho em Houston, contra a RD Congo. Segundo jogo: 22 de junho em Houston, contra o Uzbequistão. Terceiro jogo: 28 de junho em Miami, contra a Colômbia.

A estreia a 17 é tardia — três dias depois do apito inicial do Mundial. Portugal é a última seleção a entrar em campo na primeira jornada.


O elenco que Martínez vai levar

Os 26 convocáveis estarão provavelmente centrados neste núcleo:

Guarda-redes. Diogo Costa (FC Porto, 26 anos) — titular inequívoco. José Sá e Rui Silva como suplentes.

Defesa. Um dos melhores sectores da Europa. Rúben Dias (Manchester City) e António Silva (Benfica) fazem o eixo central. Nuno Mendes (PSG), Diogo Dalot (Manchester United) e João Cancelo (Al-Hilal, em rotação) nas laterais. Gonçalo Inácio como reserva.

Meio-campo. Este é o maior argumento de Portugal para o Mundial. Vitinha (PSG, 25 anos, campeão europeu pelo clube em 2025) é a referência. João Neves (PSG também, 21 anos) fez hat-trick contra a Arménia e é provavelmente o jogador mais em forma da seleção. Bruno Fernandes (Manchester United, 31) como o 10. Bernardo Silva (Manchester City, 31) como o criativo polivalente. Rúben Neves (Al-Hilal, 29) e João Palhinha (Tottenham, 30) como opções de equilíbrio defensivo.

Ataque. Aqui é que se concentra a questão. O núcleo é Cristiano Ronaldo, Rafael Leão (Milan, 26), Gonçalo Ramos (PSG, 24), João Félix (26, numa fase incerta da carreira), Francisco Conceição (Juventus, 22) e Pedro Neto (Chelsea, 25). Há espaço para jovens — Rodrigo Mora (FC Porto, 19) e Carlos Forbs (Wolfsburgo, 22) têm estado nas convocatórias mais recentes.

O problema — e Martínez sabe-o — é que Gonçalo Ramos marca mais golos como titular do que Ronaldo. A estatística é dura, mas direta: desde 2022, em 18 jogos como titular pela seleção, Ramos tem 11 golos; Ronaldo tem 14 em 27 jogos. A média de Ramos é mais alta.

Nenhum adepto português quer ver Ronaldo no banco no seu sexto Mundial. Nenhum treinador honesto pode ignorar que a seleção funciona melhor sem ele em alguns cenários tácticos.


O que se vai decidir entre 8 de junho e 17 de junho

Portugal chegará aos Estados Unidos na semana de 8 de junho, com base de treino provavelmente em Houston (ainda por confirmar pela FPF). Terá nove dias até ao primeiro jogo.

Nesses nove dias, Martínez terá que tomar a decisão que evitou há três anos. Se Ronaldo estiver em forma — e Martínez tem razão quando diz que o avançado do Al-Nassr continua a marcar golos a uma taxa impressionante com 41 anos — será titular contra a RD Congo.

Se não estiver 100%, se o calor de Houston (no mês de junho, a temperatura média é de 33°C à tarde) for um problema para as pernas de Ronaldo, Martínez terá que fazer a escolha que nenhum seleccionador português ainda teve coragem de fazer em Mundiais.

Em 2022, Fernando Santos fê-la nos oitavos contra a Suíça. Ganhou 6-1. E perdeu o jogo seguinte, e o lugar.

Martínez tem uma vantagem sobre Santos — Ronaldo está a três anos mais velho. O argumento biológico é mais forte. Mas a pressão é a mesma.


51 dias

Cristiano Ronaldo soma 953 golos na carreira. Faltam-lhe 47 para chegar aos 1.000. Ele já disse em entrevistas recentes que espera chegar lá antes de pendurar as chuteiras.

Se marcar um golo em qualquer um dos três jogos de Portugal na fase de grupos do Mundial 2026, tornar-se-á o primeiro jogador da história a marcar em seis Campeonatos do Mundo diferentes. Já tem esse feito em cinco (2006, 2010, 2014, 2018, 2022). Miroslav Klose, Uwe Seeler e Pelé marcaram em quatro.

A FPF confirmou em fevereiro a renovação de Martínez até ao final do Mundial. Não houve conversa pública sobre o que acontece depois.

Nas bancadas do Dragão, naquela noite de 16 de novembro, havia várias faixas com o número 7. Nenhuma delas apontava para um jogador em campo.

Aquela camisola estava vazia. E Portugal marcou nove golos.

A resposta sobre se isso é uma boa ou uma má notícia — para a Seleção Nacional, para Ronaldo, para Martínez — chegará entre 17 de junho e 28 de junho.

Não há muito mais tempo para pensar.


Fontes: Observador (“Portugal no Mundial 2026: Grupo, Jogos e Prognósticos”); Record (“A reação de Cristiano Ronaldo ao apuramento”); Sportinforma (16 de novembro de 2025); SAPO Notícias ao Minuto (“Portugal apurou-se para o Mundial’2026”, 14 e 16 de novembro); Mais Futebol (“Portugal é muito mais do que Ronaldo: o apuramento visto lá fora”); beIN Sports (“Roberto Martinez Sends Message to Cristiano Ronaldo”, 20 de janeiro de 2026); Correio da Manhã (16 de novembro de 2025); declarações de Maxime Chanot no programa After Foot da RMC (França); FPF.pt; FIFA Men’s World Ranking de 1 de abril de 2026; Opta Analyst (“World Cup 2026 Predictions”, atualização de abril).

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