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Praia, 13 de outubro de 2025: a tarde em que um país de 525 mil habitantes parou de trabalhar às três horas, encheu um estádio de 8 mil lugares e conquistou a primeira Copa do Mundo da sua história

Praia, 13 de outubro de 2025: a tarde em que um país de 525 mil habitantes parou de trabalhar às três horas, encheu um estádio de 8 mil lugares e conquistou a primeira Copa do Mundo da sua história

Há países que se qualificam para uma Copa do Mundo e o país segue o dia normal.

· Leitura de 10 min

Há países que se qualificam para uma Copa do Mundo e o país segue o dia normal.

Cabo Verde não é um desses países.

Estádio Nacional de Cabo Verde, cidade da Praia, ilha de Santiago. Segunda-feira, 13 de outubro de 2025, 15h00 no horário local. Última jornada do Grupo D das Eliminatórias Africanas para o Mundial 2026. Os Tubarões Azuis recebiam Essuatíni precisando de uma vitória para garantir o primeiro Mundial da sua história — ou, alternativamente, aguentar não perder enquanto os Camarões tropeçassem em Angola.

Na capital, os escritórios fecharam às duas e meia. Supermercados fecharam. Bancos fecharam. O governo tinha emitido um comunicado informal: “hoje, às três horas, o país joga”. Ninguém precisava de explicações.

O Estádio Nacional tem 8 mil lugares. Cabo Verde tem 525 mil habitantes. A conta é evidente — para 517 mil pessoas, o estádio era a televisão do bar, o rádio do táxi, o WhatsApp do primo.

Aos 48 minutos, no início da segunda parte, Dailon Livramento — o avançado do Hellas Verona, 26 anos, nascido em Lisboa de pais cabo-verdianos — aproveitou uma bola perdida dentro da área e empurrou para o fundo das redes. Cabo Verde 1, Essuatíni 0.

Aos 54, Willy Semedo fez o segundo em ataque rápido. Aos 90+, Stopira — o capitão, 37 anos, defensor do APOEL cipriota — marcou o terceiro de cabeça num canto.

Três a zero.

Cabo Verde ia ao Mundial. Pela primeira vez. Depois de mais de oito décadas de tentativas interrompidas, derrotas em pré-eliminatórias e participações que terminavam antes de começar.

A Praia não dormiu naquela noite.


O país mais pequeno por área a chegar ao Mundial

Cabo Verde é um arquipélago de dez ilhas (nove habitadas) no Atlântico, a 570 quilómetros da costa ocidental africana. A área total é de 4.033 quilómetros quadrados — menos do que o Grande Rio de Janeiro, menos do que a região metropolitana do Porto.

Com a sua qualificação, Cabo Verde tornou-se o país com a menor área territorial a chegar a uma Copa do Mundo masculina. E o segundo menor em população, atrás apenas da Islândia em 2018 (340 mil habitantes). Cinco semanas depois, Curaçao iria bater os dois recordes ao qualificar-se, mas esta tarde de outubro pertence a Cabo Verde.

A história do futebol cabo-verdiano é curta. A federação filiou-se à FIFA em 1986 — onze anos depois da independência de Portugal em 1975. O primeiro jogo oficial internacional foi uma derrota de 1-0 frente à Guiné, na Guiné-Bissau, em 1978. Por quase duas décadas, a seleção não venceu praticamente nada.

Tudo começou a mudar a partir de 2010. Cabo Verde qualificou-se para a sua primeira CAN em 2013 e foi direto aos quartos de final. Voltou em 2015, 2021 e 2023 — chegando aos quartos novamente no último torneio. Em 2026, o ranking FIFA subiu da casa dos 150 para a posição 65.

Houve um processo. Houve uma geração. Houve um técnico.


Bubista — o homem que jogou sem camisolas

Pedro Leitão Brito, conhecido em Cabo Verde simplesmente como “Bubista”, tem 56 anos e é natural da ilha da Boa Vista. Foi jogador dos Tubarões Azuis entre 1994 e 2004. Chegou a ser capitão.

Dessa época, ele lembra de uma coisa quando falou à FIFA logo após a qualificação: “Quando eu jogava pelos Tubarões Azuis, a gente nem tinha equipamento apropriado para vestir.”

Bubista foi adjunto da seleção cabo-verdiana por duas vezes antes de ser nomeado treinador principal em janeiro de 2020. Sob o seu comando — de 62 jogos, 29 vitórias, 16 empates, 17 derrotas — os Tubarões Azuis chegaram a três grandes torneios. Em 2023, aos quartos de final da CAN pela segunda vez na história.

Nos Prémios CAF de 2025, foi eleito Treinador do Ano em África.

A escolha tática de Bubista é simples — um 4-2-3-1 compacto, transições rápidas pelas alas, foco em bolas paradas. Não é futebol de possessão. É futebol de sobrevivência adaptado a um projeto de longo prazo.

Ao jornal oficial da FIFA, dias depois da qualificação, Bubista disse uma frase que virou manchete em Lisboa, em Praia, em São Paulo:

“Somos um país pequeno. Mas somos pequenos apenas no mapa… um país pequeno com um coração grande.”


Os jogadores que vieram de 14 países

Se olhar a convocatória dos Tubarões Azuis de março de 2026 — para os amigáveis contra Chile e Finlândia em Auckland — o que salta à vista é a lista de clubes: jogadores da Bulgária, da Hungria, da Rússia, da Roménia, do Egito, da França, da Holanda, do Chipre, dos Emirados Árabes Unidos, dos Estados Unidos.

Apenas um — o jovem avançado Fabio Domingos, 19 anos, do sistema formativo do Paris Saint-Germain — pertence a um clube das cinco grandes ligas europeias.

Cabo Verde não tem uma liga profissional própria capaz de formar e reter jogadores de nível internacional. Os talentos são jovens filhos da diáspora cabo-verdiana em Portugal, França, Holanda, Senegal. Muitos nasceram fora do arquipélago. Muitos só viram Cabo Verde pela primeira vez quando foram convocados.

Roberto “Pico” Lopes é o caso mais extremo. Nasceu em Dublin, de mãe irlandesa e pai cabo-verdiano. Joga atualmente no Shamrock Rovers, da primeira divisão irlandesa. Em 2019, a federação cabo-verdiana entrou em contacto com ele pelo LinkedIn — mandou-lhe uma mensagem direta perguntando se estaria interessado em representar o país do pai. Ele aceitou. Estreou-se aos 27 anos. Já tem mais de 40 internacionalizações.

Na partida decisiva contra Essuatíni, jogou os 90 minutos.

Ryan Mendes, 36 anos, capitão, é o maior goleador da história da seleção, com mais de 40 golos. Joga atualmente no Santa Clara dos Açores. Será, quase com certeza, a sua primeira e última Copa do Mundo.

Stopira — nome verdadeiro Kenny Rocha Santos — tem 37 anos e é o atual capitão defensivo. Nasceu em Roterdão, cresceu na Holanda, joga no APOEL em Nicósia. Foi ele quem marcou o terceiro golo nos descontos no jogo contra Essuatíni.

Stephen Moreira, 30 anos, lateral-direito do Toulouse na Ligue 1 francesa. Jamiro Monteiro, médio, joga no Union Saint-Gilloise da Bélgica. Logan Costa, central, joga no Reims. Vozinha, guarda-redes veterano, 39 anos, no Chaves português.

A convocatória é um mapa geográfico da diáspora cabo-verdiana no mundo. O único traço em comum — todos escolheram representar um país que, para muitos, é a terra do pai, do avô, do bisavô. Não necessariamente a terra onde nasceram ou onde vivem.

Bubista, em outra entrevista à FIFA: “É uma vitória para o povo cabo-verdiano, para aqueles que estão aqui e para aqueles que estão fora. É também uma vitória para a união.”


A noite de 9 de setembro que abriu a porta

A vitória sobre Essuatíni foi o jogo final. Mas o jogo que realmente decidiu a qualificação foi outro.

9 de setembro de 2025, Estádio Nacional de Cabo Verde.

Cabo Verde recebia os Camarões. Camarões — o país africano com mais participações em Copas do Mundo (oito), o país que tinha tido Eto’o, que ainda tinha André Onana no Manchester United — era o rival direto pelo primeiro lugar no Grupo D.

Aos 24 minutos, Dailon Livramento recebeu um cruzamento dentro da área, cortou para a frente do defensor camaronês, e bateu rasteiro no canto esquerdo de Onana.

Um a zero para Cabo Verde.

Durante os 66 minutos seguintes, os Camarões atacaram. Não marcaram. Onana, do outro lado, fez pelo menos cinco defesas decisivas. Mas a defesa cabo-verdiana — Pico Lopes, Stopira, Logan Costa — aguentou.

Ao apito final, a diferença era de quatro pontos para os Camarões com uma jornada restante. Cabo Verde passava a depender apenas de si mesmo.

Os adeptos invadiram o campo. Bubista pediu a Ryan Mendes que controlasse a celebração — “ainda falta uma jornada”, terá dito o capitão, segundo relatos posteriores.

Mas todo o país já sabia.


Os números que explicam o resto

A campanha final de Cabo Verde no Grupo D:

  • 10 jogos
  • 7 vitórias, 2 empates, 1 derrota (1-4 contra os Camarões em Yaoundé, junho de 2024)
  • 23 pontos, 4 a mais do que os Camarões
  • 23 golos marcados, 5 sofridos (diferença de +18)

Os Camarões, com oito participações em Mundiais (mais do que qualquer outro país africano), terminaram em segundo. Entraram no torneio dos melhores segundos classificados do continente, onde poderão ainda qualificar-se via repescagem africana. Mas o olhar de Yaoundé já não é o mesmo.

Cabo Verde? Caiu no Grupo H do Mundial. Vai enfrentar Espanha (favorita ao título), Uruguai (com Marcelo Bielsa no comando) e Arábia Saudita. O primeiro jogo está previsto para o dia 14 de junho — três dias depois do apito inicial do Mundial.

Nenhum especialista está a dar uma vitória de Cabo Verde em qualquer um desses jogos. A probabilidade da Opta para que os Tubarões Azuis passem à fase a eliminar é de cerca de 2,8%.

Mas essa conta não é o que interessa.


O que significa ir ao Mundial em Cabo Verde

Em 2026, Cabo Verde celebra 51 anos de independência — o país nasceu em julho de 1975, quando Portugal descolonizou finalmente o arquipélago depois de mais de quinhentos anos como colónia portuguesa.

Em cinco décadas, o país passou por secas devastadoras (a década de 70, quando milhares emigraram), por períodos de regime de partido único, por uma transição para democracia nos anos 90, e por uma lenta mas consistente construção económica baseada em turismo, remessas da diáspora (que representam cerca de 12% do PIB), e pesca.

Cabo Verde nunca teve um momento que aglutinasse o sentimento nacional no exterior como este. Dos 525 mil habitantes dentro do país, estima-se que mais de um milhão vive fora — em Portugal (onde há uma das maiores comunidades cabo-verdianas do mundo, especialmente nos arredores de Lisboa), em França, nos Estados Unidos (sobretudo em Massachusetts e Rhode Island), em Angola, no Senegal.

Quando o árbitro apitou o final do jogo contra Essuatíni, na Praia, houve festa na capital. Mas houve também festa em Amadora. Em Dorchester, subúrbio de Boston. Em Rotterdam. Em Sarcelles, ao norte de Paris.

Uma diáspora que passou décadas a explicar ao mundo onde fica Cabo Verde tinha agora uma resposta mais curta: “é o país que vai ao Mundial em 2026”.


51 dias

Faltam 51 dias para o Mundial.

Cabo Verde está atualmente a preparar-se em campos de treino em Auckland (Nova Zelândia, onde jogou dois amigáveis em março contra Chile e Finlândia) e em Portugal. Bubista continua à frente do projeto. A federação anunciou em fevereiro que o treinador renovou contrato até ao final de 2028.

Ryan Mendes, o capitão, vai fazer 37 anos dois dias antes da abertura do Mundial. Em Espanha, o seu primeiro adversário, ninguém sabe pronunciar o seu nome corretamente (é Me-nd’sh, com o “e” fechado do crioulo cabo-verdiano).

Em Praia, o Estádio Nacional — os 8 mil lugares onde tudo aconteceu — vai estar com as luzes apagadas durante o Mundial. Os jogos decisivos do país vão ser vistos em telões instalados nas praças das principais cidades.

Uma delas é a Praça Alexandre Albuquerque, em frente ao Palácio Presidencial. Na noite de 13 de outubro, a praça estava tão cheia que os carros não conseguiam sair. A polícia desistiu de tentar controlar o trânsito.

Pela manhã do dia 14, o presidente José Maria Neves decretou feriado nacional de um dia para celebrar a qualificação. Era a primeira vez na história de Cabo Verde que se fazia um feriado em honra de uma vitória desportiva.

Não se fez em 2013, quando foram aos quartos de final da CAN pela primeira vez. Não se fez em 2023, quando repetiram o feito. Foi preciso um bilhete para o Mundial.

Em junho de 2026, quando Cabo Verde entrar em campo pela primeira vez numa Copa do Mundo — provavelmente contra Espanha, provavelmente em Toronto ou Filadélfia — 525 mil pessoas dentro do arquipélago, e um milhão fora, vão parar tudo o que estiverem a fazer.

Vão procurar uma televisão, um telefone, um rádio, um ecrã — qualquer coisa.

E vão lembrar-se da tarde de segunda-feira, 13 de outubro de 2025, quando o país inteiro fechou às três horas e o mundo descobriu, no placar de um telejornal distante, que um arquipélago de 4 mil quilómetros quadrados no meio do Atlântico existia.


Fontes: beIN Sports (“Cape Verde Makes History, Qualifies for Its First-Ever World Cup”, 13 de outubro de 2025); ESPN (“Cape Verde clinches country’s first-ever World Cup spot”); Al Jazeera (“Cape Verde clinches historic first qualification for FIFA World Cup”); FIFA.com (“Cabo Verde seal historic FIFA World Cup qualification”); Olympics.com (“Football: Cabo Verde, the African archipelago nation making history”); Wikipedia (“Cape Verde national football team”, “Cape Verde at the FIFA World Cup”); CAF Online (convocatórias de março de 2025 e março de 2026); FIFA.com entrevista oficial com Bubista (“A small country with a big heart”, 15 de outubro de 2025); FourFourTwo (“Cape Verde World Cup 2026 squad: Bubista’s latest selection”); Transfermarkt (estatísticas da seleção cabo-verdiana); TSN (“2026 FIFA World Cup profile: Cabo Verde”).

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