9 de julho de 2006, Berlim.
O gramado em volta do Olympiastadion estava encharcado havia uma semana. As tempestades daquele verão sobre a Alemanha não respeitavam calendário; havia chovido três dias seguidos antes da final. O céu sobre Berlim antes do apito inicial tinha aquele cinza metálico que só se vê em latitudes altas.
O árbitro argentino Horacio Elizondo estava no círculo central, apertando a mão dos dois capitães. O da França era Zinedine Zidane, 34 anos. Tinha anunciado publicamente que ia se aposentar depois dessa final, desse no que desse.
Três horas depois, ele cumpriria essa promessa. De um jeito que ninguém viu chegando.
7º minuto: um Panenka
Aos 7, Malouda caiu na área após um carrinho de Materazzi. Pênalti, França.
Zidane caminhou até a marca. Do outro lado estava Gianluigi Buffon — o goleiro que fecharia o torneio com o prêmio de Melhor Goleiro, cuja Itália tinha sofrido só dois gols em toda a Copa, e um deles foi contra.
O lance seguro era bater forte mirando um ângulo.
Ele não fez isso.
Recuou três passos, pegou impulso e, no último instante antes do contato, desacelerou o golpe e cavou a bola com o peito do pé.
A bola subiu como uma pena, traçou uma parábola sobre o gol, roçou a parte interna do travessão e caiu dentro.
Buffon, que já tinha se atirado no canto esquerdo baixo, estava no chão. Quando se levantou, balançou a cabeça — não por Zidane, não de raiva, com aquela cara de quem diz essa jogada eu já conhecia.
Era o primeiro Panenka em uma final de Copa do Mundo.
Na cabine da TV francesa, o narrador Thierry Gilardi soltou uma frase que depois seria usada no vídeo de homenagem da Federação Francesa de Futebol: “C’est Zidane, bien sûr. C’est lui.” — “É o Zidane, claro. É ele.”
Para um Zidane de 34 anos, aquele Panenka não era apenas um gol. Era uma atuação dizendo ao mundo: eu continuo sendo o cara mais inteligente desse campo.
França 1-0.
19º minuto: cabeceio de Materazzi
Doze minutos depois, escanteio da Itália. Pirlo na cobrança.
Materazzi entrou pelo segundo pau, saltou por cima de Vieira e cabeceou firme. A bola morreu no canto esquerdo baixo do gol francês.
1-1.
Era o segundo gol de empate da Itália no torneio. Materazzi não era uma escolha popular antes da Copa — fazia parte dos nomes mais discutidos daquela Itália de 2006, com um histórico de lances imprudentes. Mas naquele minuto, virou o salvador mais improvável da Azzurra.
Ninguém sabia ainda que, 90 minutos depois, o mesmo homem se tornaria o protagonista de uma história completamente diferente.

104º minuto: a ponta dos dedos de Buffon
Prorrogação. As duas seleções tinham criado chances. Nenhuma tinha convertido.
Aos 104, Zidane pegou um cruzamento de falta, calculou o tempo para chegar ao segundo pau e cabeceou para o gol.
A bola saiu seca, pesada, descendo rumo ao canto direito baixo. Buffon mergulhou e, com a ponta dos dedos, empurrou a bola por cima do travessão.
Essa repetição rodou bastante depois. Zidane se levantou, viu a bola sair pela linha de fundo, não bateu palmas, não fez gesto de frustração, só voltou devagar ao próprio campo.
O escritor belga Jean-Philippe Toussaint descreveu exatamente esse instante no ensaio A Melancolia de Zidane, publicado em 2006. Ele defende que, naquela fração de segundo, Zidane percebeu que não tinha mais nem tempo, nem pernas, nem vontade para fechar a despedida perfeita.
A linha de Toussaint, em tradução livre: “A forma se recusava a ele. Incapaz de aceitar a própria impotência, escolheu arruinar a própria saída perfeita.”
É uma leitura literária feita depois do fato. As 90 mil pessoas que estavam no estádio naquela hora não sabiam disso. Mas seis minutos depois, iam ver a versão concreta de “arruinar a perfeição”.
110º minuto: aqueles quatro segundos
A segunda etapa da prorrogação estava no décimo minuto. Ainda 1-1. Todo mundo se preparando para os pênaltis.
Um ataque francês foi cortado. A bola foi afastada para o outro lado do campo. Zidane voltava andando devagar em direção à linha central.
Materazzi estava atrás dele, uns cinco metros atrás.
Os dois iam um em direção ao outro. Ao cruzar com Zidane, Materazzi puxou a camisa dele.
O que foi dito depois teve pelo menos cinco versões diferentes nos últimos 20 anos.
Zidane, Canal+ França, setembro de 2006: “Ele insultou repetidamente a minha mãe e a minha irmã com palavras muito duras.” Recusou-se a dar as palavras exatas.
Materazzi, Gazzetta dello Sport, setembro de 2006: “Eu o insultei, mas não insultei a mãe dele.” Recusou-se a dar as palavras exatas.
Materazzi, agosto de 2007 (primeira versão pública das palavras): “Eu disse a ele — prefiro a puta da sua irmã.”
Materazzi, jornal AS, Espanha, 2020 (contexto adicional): “Na verdade, o Zidane começou. Ele me disse, ‘se você quer a minha camisa, te dou depois do jogo.’ E foi aí que eu disse o que disse.”
Materazzi, Vivo Azzurro (canal da Federação Italiana), março de 2026 (versão mais recente): “Eu puxei a camisa dele. Ele disse, ‘você pode ficar com ela depois do jogo.’ Eu disse que preferia a irmã dele. Depois ele disse alguma coisa e eu respondi — ‘do tipo de coisa que a gente falava de criança, jogando bola na rua.’”
A verdade provavelmente nunca vai se fixar numa versão única.
Mas o que aconteceu em campo não está em discussão. Zidane andou dois passos, parou, se virou e encravou a testa no esterno de Materazzi.
Materazzi caiu.

O árbitro, a 25 metros, não viu
Elizondo contou a história toda em uma entrevista de 2011 à revista britânica The Blizzard:
“Eu estava a uns 25 ou 30 metros deles. Vi o Materazzi cair — não do jeito de quando alguém te dá uma rasteira, do jeito de quando você apanhou. Esperei ele se levantar. Não se levantava. Não se levantava. Não se levantava. Parei o jogo.”
Elizondo perguntou aos dois assistentes pelo ponto eletrônico: “O que vocês viram?” Os dois responderam “nada”.
Ali deveria ter acabado — uma pausa silenciosa, retomar o jogo.
Foi quando uma terceira voz apareceu no ponto. O quarto árbitro Luis Medina Cantalejo: “Horacio, Horacio, eu vi. O Zidane deu uma cabeçada no peito do Materazzi. Violenta.”
A rigor, o quarto árbitro não tinha autorização para usar replay de vídeo para influenciar decisões — essa era a regra em 2006. Cantalejo tinha visto a reprise em câmera lenta no telão do estádio (a transmissão anfitriã tinha cortado para essa imagem).
Esse detalhe desencadearia mais tarde uma investigação interna da FIFA. A decisão final foi que a fonte de Cantalejo era legítima, porque ele estava “observando ao vivo” — o telão estava no campo de visão dele. O cartão vermelho foi mantido.
Elizondo foi buscar o vermelho.
Zidane abaixou a cabeça e caminhou rumo ao túnel.
A taça da Copa do Mundo estava ali, bem ao lado, quando ele passou
O pódio da final de 2006 ia subir do chão, perto do círculo central, depois da partida. Mas durante a prorrogação, a taça em si já estava em cima de um pedestal de vidro ao lado do túnel dos jogadores, pré-posicionada para a cerimônia.
O caminho de Zidane para sair do gramado passava bem do lado dela.
A fotografia que saiu desse instante virou uma das imagens definidoras da Copa de 2006 — Zidane, de cabeça baixa, passando a um metro da taça, sem olhar.
O fotógrafo oficial da FIFA Georges Laporte contou à L’Équipe em uma entrevista de 2016: “Disparei três vezes naquele instante. Eu não sabia o que estava fotografando, mas sabia que tinha que fotografar.”
Essa foto acabaria levando o segundo lugar na categoria esporte do World Press Photo de 2007.

Os 12 minutos que sobraram
Sem Zidane, a França ficou com dez.
Trezeguet, Henry, Malouda ainda estavam em campo. Mas o ritmo francês tinha acabado — não por estar faltando um jogador, mas porque o jogador que estava faltando era o Zidane.
O jogo terminou 1-1 e foi para os pênaltis.
- Pirlo → gol
- Vieira → gol
- Materazzi → gol
- Trezeguet → na parte de baixo do travessão, para fora
- De Rossi → gol
- Abidal → gol
- Del Piero → gol
- Sagnol → gol
- Fabio Grosso → gol!
Itália 5-3, quarto título mundial da história. Materazzi — o homem em quem Zidane tinha dado a cabeçada — foi um dos italianos que converteram a batida.
A França voltou ao vestiário com a medalha de prata. O zagueiro francês Mikaël Silvestre contou depois na talkSPORT:
“O Zidane já estava no vestiário. Já tinha tomado banho. Estava pedindo desculpa para todo mundo. Eu não entendia do que ele estava pedindo desculpa. Só entendi quando entrei na zona mista e vi a repetição nas TVs. Fiquei parado lá, tudo o que eu conseguia falar era ‘wow, wow, wow, tá bom.’”
Algumas horas depois: Zidane foi eleito Bola de Ouro da Copa
Poucas horas depois de Zidane ser expulso, a FIFA anunciou oficialmente que ele era o vencedor da Bola de Ouro do torneio.
Foi a primeira e única vez na história do futebol que um jogador expulso em uma final de Copa do Mundo — um jogador cujo vermelho contribuiu para a derrota da seleção na final — foi eleito o melhor do torneio inteiro.
A FIFA e a AIPS (Associação Internacional da Imprensa Esportiva, que organiza o voto dos jornalistas) deram seus votos com base no torneio inteiro, não só na final. Por esse critério, Zidane — autor do gol da classificação nas oitavas contra a Espanha, dono do jogo nas quartas contra o Brasil, cobrador do pênalti da semifinal contra Portugal — tinha todos os motivos para levar o prêmio.
Mas o prêmio ia ser entregue, com polêmica permanente carregada, a um homem de 34 anos que tinha acabado de ser expulso.
O governo francês emitiu uma nota curta naquela mesma noite. O então presidente Jacques Chirac chamou Zidane de “um homem de coração e convicção”. Uma pesquisa de 11 de julho de 2006 mostrou que 61% dos franceses diziam já ter perdoado ele, e 52% diziam entender por que ele fez aquilo.
18 anos depois, Materazzi continua falando
Em 2024, Materazzi contou em um podcast italiano: “Eu ainda tenho aquele sonho. No sonho, o Zidane não se vira, e a gente sai vivo os dois.”
Zidane nunca apertou a mão dele.
Em 2010, declarou à rádio francesa RTL: “Eu prefiro morrer a pedir desculpa ao Materazzi.” Na mesma entrevista, poucos minutos depois, acrescentou: “Mas se tivessem me deixado ficar naquele campo e ganhar a Copa do Mundo — eu não teria conseguido viver comigo mesmo.”
Lidas juntas, as duas frases formam uma simetria desconfortável. Ele não se arrepende da cabeçada; não se arrepende de ter perdido a Copa por causa da cabeçada. Parece ter entendido melhor do que qualquer outro: se tivesse deixado aquele momento passar, ele teria se perdido de outro jeito.
Verão de 2026
Segundo o comunicado oficial da Federação Francesa de Futebol de janeiro de 2026, Zidane assumirá oficialmente o cargo de técnico da seleção francesa depois da Copa do Mundo 2026, sucedendo Didier Deschamps.
Ou seja — esse verão, ele vai estar na arquibancada em cada jogo da França como o próximo treinador da seleção francesa. Vai ver Mbappé, Camavinga, Dembélé jogando. O filho mais velho, Enzo Zidane, já se aposentou; o segundo, Luca, é goleiro do Sevilla; o caçula, Théo, acabou de fazer 24 anos.
Ele não vai mais enfiar a testa no peito de ninguém.
Mas aqueles dez minutos em Berlim, no dia 9 de julho de 2006 — da defesa de ponta de dedo do Buffon aos 104, aos quatro segundos dos 110, ao plano dele passando do lado da taça sem olhar — vão continuar rodando antes de toda Copa do Mundo.
Em quatro segundos de fúria, um gênio deu a única despedida que sabia dar.
Fontes: verbete da Wikipédia sobre a Final da Copa do Mundo FIFA de 2006; Goal.com, “Why did Zidane headbutt Materazzi”; Jonathan Wilson na Sports Illustrated, “Zinedine Zidane’s World Cup final headbutt recalled, 10 years later” (2016); The Blizzard, edição 11, entrevista com Horacio Elizondo; Jean-Philippe Toussaint, La Mélancolie de Zidane; entrevista de Zidane no Canal+ França, setembro de 2006; Football-italia.net, entrevista de Materazzi, março de 2026; entrevista de Zidane na RTL França, 2009; comunicado oficial da Federação Francesa de Futebol sobre a sucessão de Zidane, janeiro de 2026.



