Uma campanha de qualificação de dois anos e meio se encerrou em 31 de março de 2026 com a vitória do Iraque por 2 a 1 em solo boliviano — resultado que fechou o ciclo de eliminatórias mais longo, mais expandido e mais disruptivo da história da Copa do Mundo.
Quando Aymen Hussein marcou o último gol das eliminatórias — uma cabeçada que garantiu ao Iraque a última vaga disponível no torneio de 48 seleções —, o mundo da bola já havia digerido a manchete maior: a Itália não vai à América do Norte. Nem a Nigéria. Nem a República Democrática do Congo, que venceu a Nigéria na final do playoff da CAF mas perdeu o repechão intercontinental dias depois. A expansão para 48 seleções deveria ter facilitado a classificação. Para algumas das nações mais consolidadas do esporte, ela produziu o efeito oposto.
As manchetes

O formato ampliado entregou quatro estreantes — Cabo Verde, Curaçao, Jordânia e Uzbequistão — somados a um quinto país, Catar, que se classifica pela primeira vez por mérito esportivo após sua passagem direta como sede em 2022. Curaçao, com população em torno de 155 mil habitantes, se torna o menor país a se classificar para uma Copa do Mundo masculina, batendo o recorde da Islândia em 2018.
Oito nações árabes se classificaram — Argélia, Egito, Iraque, Jordânia, Marrocos, Catar, Arábia Saudita e Tunísia —, número recorde na história do torneio, o dobro das quatro presentes no Catar 2022 e na Rússia 2018. A zona da OFC (Oceania) recebeu pela primeira vez uma vaga automática garantida, ocupada pela Nova Zelândia.
A ausência da Itália é a manchete que não some. A tetracampeã mundial fracassou pela terceira vez consecutiva nos playoffs europeus, eliminada pela Bósnia e Herzegovina nas penalidades (4-1) no San Siro em 26 de março. A Azzurra estava na 12ª colocação do ranking da FIFA — a seleção mais bem ranqueada do mundo a não se classificar. O técnico Luciano Spalletti pediu demissão poucas horas após o apito final.
A revolução silenciosa da Europa
As 16 vagas da UEFA — contra 13 em 2022 — foram para Inglaterra, França, Croácia, Noruega, Portugal, Alemanha, Holanda, Suíça, Escócia, Espanha, Áustria, Bélgica, mais os vencedores dos playoffs Bósnia e Herzegovina, Suécia, Türkiye e República Tcheca.
A classificação da Suécia chegou pelo caminho mais tortuoso do formato: os escandinavos só alcançaram os playoffs pela porta dos fundos da UEFA Nations League, apesar de terem terminado em terceiro em seu grupo de qualificação. É a primeira vez na história da Copa do Mundo que uma nação europeia se classifica via ranking da Nations League após falhar diretamente. O técnico Jon Dahl Tomasson chamou de “uma segunda vida que não esperávamos”.
A Noruega encerra 28 anos de espera. A equipe construída em torno de Erling Haaland e Martin Ødegaard liderou o Grupo I sem derrotas e disputará sua primeira Copa desde a França 1998. Haaland marcou 16 gols em 10 jogos eliminatórios — recorde da UEFA em ciclo único.
A classificação da Escócia mudou a conversa política em torno do futebol nos países britânicos. A equipe de Steve Clarke disputará sua primeira Copa do Mundo desde 1998 e foi sorteada no Grupo L ao lado da Inglaterra naquilo que o departamento de marketing da FIFA rotulou como “o moderno Auld Enemy”. A partida do dia 22 de junho em Atlanta foi o ingresso mais revendido nos mercados secundários europeus, com preços para certas seções superando 4.000 dólares.
A reformulação em três níveis da América do Sul
As seis vagas automáticas da CONMEBOL ficaram com Argentina (atual campeã), Brasil, Colômbia, Uruguai, Paraguai e Equador. A Bolívia avançou ao repechão intercontinental, mas perdeu sua final para o Iraque.
A Argentina chega como atual campeã, com Lionel Messi confirmando sua aposentadoria do futebol internacional após o torneio. Ele completa 39 anos no fim de junho. O técnico argentino Lionel Scaloni convocou um elenco de 26 atletas que deve misturar os campeões de 2022 — Messi, Lautaro Martínez, Rodrigo De Paul, Cristian Romero — com talentos emergentes como Franco Mastantuono e Alejandro Garnacho.
A tabela das eliminatórias da CONMEBOL produziu o ciclo classificatório mais competitivo da história recente da confederação. A Colômbia, que não se classificou em 2022, terminou em terceiro com uma geração liderada por James Rodríguez (35 anos) e Luis Díaz (29). O trio de ataque é amplamente considerado o mais forte da Colômbia desde 2014, quando o mesmo Rodríguez, em seu auge, levou o país às quartas de final no Brasil.
Os oito da Ásia, mais um
A AFC entregou oito classificados diretos — Japão, Irã, Coreia do Sul, Austrália, Arábia Saudita, Jordânia, Catar, Uzbequistão — e o Iraque pelo repechão intercontinental.
O Japão foi a primeira nação do mundo a se classificar, garantindo sua vaga em março de 2025 com duas datas FIFA ainda por jogar. A campanha da terceira fase da AFC — vencendo o grupo com 25 pontos em 10 jogos e saldo de gols +25 — foi a mais dominadora de uma seleção asiática na história das eliminatórias da Copa.
Irã, Arábia Saudita e Coreia do Sul completam o quarteto histórico da AFC, cada um chegando à 7ª, 6ª e 11ª Copa consecutiva, respectivamente.
As duas estreantes — Jordânia e Uzbequistão — são as histórias de destaque do ciclo. O Uzbequistão, nação independente desde 1991, havia atingido mas nunca cruzado a fase final de classificação em sete tentativas anteriores. A Jordânia, dirigida por Hussein Ammouta, derrotou o Iraque na ida e na volta para garantir sua vaga. As duas seleções viajarão à América do Norte sem qualquer expectativa e com pouquíssima experiência mundialista em seus elencos.
O pós-escrito doloroso da África
A CAF recebeu nove vagas — seis a mais do que as três originalmente propostas pela candidatura conjunta de Estados Unidos, México e Canadá. Os classificados são Marrocos, Tunísia, Egito, Argélia, Senegal, Cabo Verde, Gana, Costa do Marfim e África do Sul.
A classificação de Cabo Verde é o resultado da menor nação africana na história da Copa do Mundo. O arquipélago de meio milhão de habitantes liderou o Grupo D com 23 pontos em 10 jogos, ficando à frente dos Camarões — pentacampeões mundialistas — por apenas um ponto.
A eliminação da Nigéria na final do playoff CAF é o momento isolado mais dramático do ciclo. Os Super Eagles, duas vezes quartofinalistas, perderam nas penalidades para a RD Congo (4-3) em 16 de novembro de 2025 em Rabat, no Marrocos. O atacante Victor Osimhen converteu a primeira penalidade nigeriana, mas perdeu a quinta, decisiva. Saiu de campo em lágrimas. A Nigéria já perdeu três das últimas quatro Copas do Mundo.
A RD Congo então perdeu o repechão intercontinental na Cidade do México para a Bolívia, depois de ter vencido a Nova Caledônia na semifinal três dias antes. O técnico congolês Sébastien Desabre foi demitido em 4 de abril.
O drama do repechão intercontinental

O repechão intercontinental no México produziu duas das partidas mais decisivas do ciclo:
Iraque 2-1 Bolívia (31 de março, Estadio Akron, Guadalajara). O Iraque, voltando à Copa pela primeira vez desde 1986, virou um placar adverso de 1-0. A Bolívia, que teria sido apenas a segunda classificação do país na história, alinhou em sua última partida classificatória cinco jogadores que também haviam disputado o repechão intercontinental perdido em 1994.
Suriname 0-1 Nova Caledônia (semifinal de 27 de março, Akron). O Suriname, representante da CONCACAF, foi eliminado pela Nova Caledônia, da OFC, que por sua vez perdeu para a RD Congo na segunda semifinal.
O torneio em si

A Copa do Mundo 2026 começa em 11 de junho com México x África do Sul no Estádio Azteca, na Cidade do México — fazendo do Azteca o primeiro estádio na história a sediar partidas de três Copas do Mundo (1970, 1986, 2026). O torneio se encerra 38 dias depois, em 19 de julho, com a Final no MetLife Stadium em East Rutherford, Nova Jersey.
As 48 seleções foram divididas em 12 grupos de 4. O formato ampliado significa que os dois primeiros de cada grupo mais os oito melhores terceiros colocados — 32 equipes no total — avançam à fase eliminatória de 32-avos de final. A fase de 32-avos é uma novidade na Copa do Mundo masculina; até então só havia aparecido na Copa do Mundo feminina a partir de 2015.
O formato ampliado foi criticado pela FIFPRO (sindicato dos jogadores) e por várias federações europeias por adicionar partidas a um calendário do futebol já congestionado. A edição de 2026 terá 104 partidas, contra 64 em 2022 — aumento de 62,5%. Os jogadores que chegarem à final disputarão oito jogos em 38 dias; as edições anteriores tinham teto de sete jogos no mesmo intervalo.
O que vem agora
Os preparativos de viagem e logística se intensificaram. ESTAs e vistos para jogadores, familiares e torcedores em viagem aos Estados Unidos estão sendo processados pelas embaixadas americanas; o Departamento de Estado americano confirmou que as solicitações de visto de Brasil, Irã e Rússia (não classificada, mas cujos torcedores ainda têm permissão para viajar) estão tomando de três a quatro meses para uma primeira entrevista.
As 16 cidades-sede — três no México (Cidade do México, Guadalajara, Monterrey), duas no Canadá (Toronto, Vancouver) e onze nos Estados Unidos — estão nas semanas finais de preparação dos gramados, logística de transporte e coordenação de segurança. O incidente de segurança de 80 minutos na final da Copa América 2024 em Miami segue como referência para os organizadores.
O torneio será o evento televisivo mais assistido da história da humanidade. A FIFA projeta uma audiência global de 5 bilhões de espectadores únicos ao longo dos 38 dias. A partida com maior audiência prevista é a Final do dia 19 de julho no MetLife.
Os 48 estão definidos. O futebol começa em 35 dias.



