O sorteio da Copa do Mundo 2026 confirmou o que a região esperava: as seis seleções sul-americanas classificadas — Argentina, Brasil, Uruguai, Colômbia, Paraguai e Equador — ficaram distribuídas em chaves que prometem três semanas de futebol latino-americano em solo norte-americano.
A 35 dias do jogo de abertura no Estádio Azteca, todo o continente converge sobre uma pergunta que excede qualquer das seis seleções: será esta a última imagem que o futebol mundial verá de Lionel Messi? O capitão argentino confirmou em entrevista à TyC Sports no dia 12 de abril que a Copa do Mundo 2026 será sua última participação com La Albiceleste. Ele completa 39 anos em 24 de junho, durante a fase de grupos.
A defesa argentina: um projeto de duas gerações

A Argentina chega como bicampeã vigente — Copa do Mundo 2022 mais duas Copas América consecutivas (2021 e 2024). Lionel Scaloni, o treinador que armou o grupo desde 2018, manteve a coluna vertebral, mas já integrou uma geração nova ao elenco.
O Grupo J que enfrentará a Argentina inclui Argélia, Bolívia e um repescado europeu. A sede dos jogos do grupo é o AT&T Stadium em Arlington, Texas — onde a equipe abrirá em 14 de junho contra a Argélia. O segundo encontro do grupo será no Mercedes-Benz Stadium de Atlanta. O terceiro, de volta a Arlington.
O elenco argentino confirmado por Scaloni mistura os campeões de 2022 com seis caras novas. A coluna segue a mesma: Emiliano Martínez no gol, Cristian Romero e Nicolás Otamendi na zaga, Rodrigo De Paul e Enzo Fernández no meio, Lautaro Martínez como centroavante. As novidades — Franco Mastantuono, de 18 anos, contratado pelo Real Madrid; Alejandro Garnacho, do Manchester United; Valentín Carboni, da Inter de Milão — apontam para a renovação que a AFA vem preparando desde a Copa América 2024.
Mastantuono é o nome que mais interesse gera em Buenos Aires. Convocado pela primeira vez à seleção principal em março de 2025, quando ainda jogava no River Plate, Scaloni o incluiu na lista da Copa apesar de somar apenas 14 partidas entre eliminatórias e seleção. A aposta é clara: o substituto natural de Messi é Mastantuono, não algum jogador da geração atual.
Messi disputou 262 jogos pela Argentina, marcou 115 gols e ganhou todos os títulos disponíveis. O único que pode repetir é a Copa do Mundo. Ele mesmo disse, em julho de 2024 no Hard Rock Stadium em Miami, quando saiu da final da Copa América em prantos com o tornozelo direito destruído: “Pensava que minha história em Copas tinha terminado em 2022. Não sabia que teria mais um capítulo para escrever.”
Esse capítulo começa em 14 de junho.
O Brasil sem Neymar, com Ancelotti
A Seleção chega à Copa do Mundo 2026 sem Neymar — descartado por uma nova lesão em abril — e dirigida por Carlo Ancelotti, o primeiro técnico europeu na história da seleção brasileira. Ancelotti assumiu em maio de 2025, após o fracasso na Copa América 2024 (eliminação nas quartas de final, nos pênaltis, contra o Uruguai).
O Brasil ficou no Grupo C ao lado de Marrocos, Cabo Verde e um repechado intercontinental. Estreia em 13 de junho contra Marrocos no MetLife Stadium — a revanche das quartas de final da Copa do Mundo 2022, em que os brasileiros caíram nos pênaltis para a Croácia depois de uma partida marcada por exaustão física. Os marroquinos, semifinalistas no Catar, são favoritos contra os prognósticos clássicos.
O elenco de Ancelotti se constrói em torno de Vinicius Jr (25 anos, Real Madrid), Rodrygo (25, Real Madrid) e Endrick (19, Real Madrid). As três figuras do ataque brasileiro jogam no mesmo clube, o que os críticos veem como uma força tática e outros como uma fraqueza: o Brasil está apostando tudo na linha de ataque mais cara do mundo, sem um meio-campista criativo de hierarquia mundial atrás. Casemiro, o motor de 2022, fica de fora pela idade (34) e pela decisão técnica de Ancelotti de jogar com um meio-campo mais jovem.
A partida mais aguardada do grupo brasileiro é a de 24 de junho contra a Escócia no Hard Rock Stadium de Miami. O Brasil não enfrenta a Escócia desde 1998. Os escoceses, com sua primeira participação mundialista em 28 anos, esperam um choque de tradição.
Uruguai: a geração de Bielsa
A Celeste de Marcelo Bielsa se classificou em terceiro na CONMEBOL, atrás de Argentina e Colômbia. Bielsa assumiu em maio de 2023 com a missão explícita de renovar uma seleção que no Catar 2022 caiu na fase de grupos pela primeira vez em 16 anos.
O Grupo H coloca o Uruguai com Arábia Saudita, Cabo Verde e Espanha. A partida de estreia uruguaia é em 15 de junho no Hard Rock Stadium de Miami contra a Arábia Saudita.
Bielsa fez o que prometeu: o elenco uruguaio de 2026 é o mais jovem em décadas. Federico Valverde (27 anos, Real Madrid) é o capitão. Darwin Núñez (26, Liverpool) será o centroavante. Maximiliano Araújo (25, Sporting CP) cobre a faixa. A surpresa é Facundo Pellistri (24, Granada), que passou de descarte do Manchester United a titular indiscutível sob Bielsa. Luis Suárez (39) e Edinson Cavani (39) não estarão; ambos se aposentaram da seleção em 2024.
O Uruguai aspira realisticamente às oitavas. A meta declarada por Bielsa em coletiva em Montevidéu foi “competir com qualquer um durante 90 minutos”. Uma frase de Bielsa, um manual de jogo: nada de promessas, tudo de processo.
Colômbia volta: a geração de James
A Colômbia falhou na classificação para a Copa do Mundo 2022 e regressa ao torneio máximo depois de oito anos. A seleção que terminou em terceiro na CONMEBOL joga sua primeira partida em 17 de junho no SoFi Stadium de Los Angeles contra um repescado europeu.
James Rodríguez, vencedor da Chuteira de Ouro em 2014 com seis gols e MVP da Copa América 2024, chega à Copa com 35 anos. É sua última oportunidade em um grande torneio com a Tricolor. No Catar 2022, sem ele, a Colômbia nem se classificou. Em 2026, seu rendimento é a diferença entre as oitavas e a eliminação. Luis Díaz (29, Liverpool) e Luis Sinisterra (26, Bournemouth) lideram o ataque pelas pontas. Jhon Durán (22, Aston Villa) é o centroavante.
O Grupo F colombiano inclui Portugal e Egito — um grupo difícil mas superável. O encontro mais midiático é o de 27 de junho contra Portugal no Hard Rock Stadium de Miami. Cristiano Ronaldo confirmou que será sua última Copa do Mundo; Portugal busca seu primeiro título. A Colômbia busca voltar às quartas de final pela primeira vez desde 2014.
Paraguai e Equador: as surpresas estáveis
O Paraguai se classifica para a Copa do Mundo pela primeira vez desde 2010, após 16 anos de ausência. A equipe de Gustavo Alfaro — técnico argentino que dirige o Paraguai desde 2024 — foi a segunda mais sólida em defesa de toda a eliminatória sul-americana, atrás apenas da Argentina. O veterano Antony Silva segue no gol aos 41 anos, marcando um recorde do futebol paraguaio. Miguel Almirón, ex-Newcastle, é a figura ofensiva.
O Equador chega à sua quinta Copa do Mundo em seis ciclos. A geração de Moisés Caicedo (24, Chelsea), Piero Hincapié (24, Bayer Leverkusen) e Kendry Páez (19, Chelsea) é a mais cotada da história equatoriana no mercado europeu. A meta declarada pelo técnico Sebastián Beccacece: superar a fase de grupos pela primeira vez desde 2006.
Bolívia: a oportunidade perdida

A Bolívia chegou até o repechão intercontinental em Guadalajara. Perdeu por 2-1 para o Iraque em 31 de março no Estádio Akron — um gol perdido aos 89 minutos, uma bola parada que não foi controlada, e a última oportunidade de voltar à Copa depois de 32 anos de ausência. A seleção verde não joga uma Copa do Mundo desde os Estados Unidos 1994.
A partida foi a mais vista da história do futebol boliviano. La Paz ficou completamente vazia durante os 90 minutos. Os terraços da avenida 16 de Julio mostravam a partida em telas montadas na rua. Quando o árbitro suíço Sandro Schärer apitou o fim, o silêncio em La Paz durou quatro horas, segundo a reportagem do jornal Página Siete.
O que ainda está por vir

O sorteio final completo ocorreu em dezembro de 2025 em Las Vegas, mas as chaves do torneio dependem de como terminem as posições do grupo. Os cruzamentos mais aguardados:
- Argentina vs Brasil: impossível antes da final (não podem cair no mesmo lado da chave). Se ambas avançarem à final, seria a primeira final Argentina vs Brasil na história mundialista.
- Argentina vs Uruguai: possível nas quartas de final se ambas vencerem seus grupos.
- Brasil vs Colômbia: possível nas oitavas de final.
- Argentina vs Espanha: possível na semifinal — o cruzamento que mais expectativa gera fora da América do Sul.
As duas sedes que mais concentram torcidas sul-americanas são Miami (com a maior população argentina e brasileira reunida) e Cidade do México (anfitriã da partida de abertura e conexão natural para torcedores de toda a América Latina). As companhias aéreas relatam aumentos de 180% nos voos de Buenos Aires a Atlanta para a semana de 12 a 16 de junho, datas que coincidem com os dois primeiros jogos argentinos.
Faltam 35 dias. A defesa do título começa em 14 de junho.



