O calendário da Copa do Mundo de 2026 traz 40 jogos a mais, 9 dias a mais, 16 seleções a mais e uma rodada eliminatória inteiramente nova em comparação com todas as edições anteriores.
Soa como uma expansão simples — de 32 para 48 seleções, só mais alguns jogos.
Não é. Passar para 48 seleções envolve resolver mais problemas do que se imagina. Só a pergunta “o que fazer com o terceiro colocado” levou a FIFA a testar quatro rascunhos de formato diferentes, ao longo de sete anos, até bater o martelo na versão atual.
Este texto não vai falar “sobre o que é o calendário”. Vai falar sobre por que este formato tem esse desenho, e que mudanças concretas ele traz para cada seleção participante.
Na votação de 2017, uma proposta quase foi a escolhida
Em 10 de janeiro de 2017, o Conselho da FIFA, reunido em Zurique, aprovou em votação a “expansão para 48 seleções”. Mas nos seis meses anteriores, quatro propostas candidatas estiveram em cima da mesa.
Proposta A: 16 grupos de 3 equipes, com as 2 primeiras de cada grupo avançando, totalizando 32 para a fase eliminatória. O problema salta aos olhos — uma fase de grupos com 3 times significa que a terceira rodada pode produzir resultados combinados. A “Vergonha de Gijón” de 1982 (Alemanha Ocidental 1 x 0 Áustria, na Espanha) nasceu desse tipo de arranjo.
Proposta B: 8 grupos de 6 equipes, com as 2 primeiras de cada grupo mais os 4 melhores terceiros avançando, totalizando 20 para a fase eliminatória. O problema é que a fase de grupos fica longa demais — cada seleção precisaria jogar 5 partidas, e o torneio se estenderia por mais de 45 dias.
Proposta C: 16 grupos de 3 equipes, com as 2 primeiras mais os 4 melhores terceiros, totalizando 40 seleções. Rejeitada porque o “40” não era um número redondo — a FIFA queria um número que se dividisse de forma simétrica, para facilitar a alocação de transmissões de TV e ativações de patrocinadores.
Proposta D (versão final): 12 grupos de 4 equipes, com as 2 primeiras de cada grupo mais os 8 melhores terceiros, totalizando 32 para a fase eliminatória.
As duas razões centrais para a Proposta D serem escolhidas: cada seleção precisa de no máximo 8 jogos para ser campeã (só um a mais do que no formato de 32), e o modelo evita a mancha histórica dos “grupos de 3 com jogos combinados”.
Essa estrutura 12+4+8, que parece natural, foi na verdade a opção “de menor risco” que a FIFA escolheu entre quatro propostas.
O desenho dos “8 melhores terceiros” foi copiado da Eurocopa
Depois que os 12 grupos terminarem, haverá 12 terceiros colocados. Oito deles se classificarão para a fase de 32 avos.
Esse mecanismo “8 em 12” não é invenção da FIFA — é cópia da Eurocopa da UEFA.
A Eurocopa foi expandida para 24 seleções em 2016, adotando 6 grupos de 4 + oitavas de final, com as 2 primeiras de cada grupo mais os 4 melhores terceiros avançando. Dez anos depois, o modelo provou uma coisa: ele reduz de forma significativa o “tempo morto”. Mesmo perdendo os dois primeiros jogos da fase de grupos, uma seleção ainda tem motivo para disputar o terceiro, porque a terceira colocação pode valer a classificação.
A FIFA pegou esse mecanismo, “dobrou” e implantou na Copa — 12 grupos, 8 terceiros, exatamente a mesma proporção da Eurocopa (um terço dos grupos produz terceiros classificados).
O que isso significa para seleções menores? Segundo o modelo que a Opta divulgou em fevereiro, uma seleção que hoje oscila entre a 40ª e a 60ª posição do ranking mundial (Panamá, Escócia, Uzbequistão, por exemplo) tinha no formato antigo cerca de 12% de chance de passar da fase de grupos. No formato novo, sobe para cerca de 23%.
Praticamente o dobro.
”Como ordenar os terceiros” é uma conta mais complicada do que parece
A regra é esta: os 12 terceiros colocados são ordenados primeiro por pontos. Em caso de empate, decide o saldo de gols; se o saldo empatar, os gols marcados; se os gols marcados também empatarem, os pontos de fair play; e por último, sorteio.
Parece simples. Mas a Copa de 2026 traz pela primeira vez um problema novo: terceiros colocados de grupos diferentes podem enfrentar adversários completamente distintos.
Exemplo. Imagine que, no Grupo E (Alemanha, Curaçao, Costa do Marfim, Equador), a Costa do Marfim termina em terceiro com 4 pontos em 3 jogos. No Grupo F (Holanda, Japão, Tunísia, Suécia), a Suécia termina em terceiro também com 4 pontos em 3 jogos.
Quem passa na frente?
Se o desempate pela sequência “pontos — saldo — gols marcados” não separar os dois, entra em cena o fair play — pontos descontados por cartões amarelos e vermelhos. Isso gera um efeito colateral curioso: o custo psicológico do cartão amarelo é maior para um terceiro colocado do que para os dois primeiros.
Um técnico que receber uma falta tática aparentemente inofensiva no minuto 85 pode, com esse cartão, tirar o próprio time da sequência de classificação.
Esse detalhe só foi divulgado por completo pela FIFA depois do sorteio de dezembro de 2025. Algumas comissões técnicas já ajustaram os treinos de disciplina — reduziram as faltas táticas e aumentaram as jogadas de retardamento (bloqueios, simulações sem contato). É uma mudança tática que não apareceu na Copa anterior.

A nova rodada de 32 avos: o maior beneficiado não é a seleção forte
A mudança mais visível do formato de 48 é o acréscimo de uma rodada de 32 avos.
Intuição: mais um jogo prejudica as seleções fortes, porque acumula risco de desgaste e lesão.
Contraintuição: na verdade, quem mais se beneficia são as seleções que já têm nível de classificação às oitavas de final, mas costumam tropeçar na fase de grupos.
Revisitando dados das últimas Copas: França em 2014, Brasil em 2018, Portugal em 2022 — todas compartilham um traço comum: “tropeçam na fase de grupos, melhoram conforme avançam no mata-mata”. No formato antigo de 32, uma única derrota na fase de grupos podia transformar o líder do grupo em segundo colocado, caindo em um chaveamento mais duro.
No formato novo, o caminho do segundo colocado e do terceiro colocado para os 32 avos é praticamente o mesmo — a margem de erro na fase de grupos aumentou de forma significativa.
Quem sai realmente prejudicado são as seleções médias e pequenas capazes de surpreender liderando o grupo — antes, garantiam vaga direta nas oitavas. Agora, continuam se classificando para o mata-mata, mas com uma rodada a mais pela frente. Uma rodada a mais é também uma chance a mais de ser eliminado.
A Opta estima: seleções médias e pequenas têm no novo formato cerca de 17% menos probabilidade de chegar às quartas de final. É mais fácil entrar no mata-mata, mais difícil avançar.
Os 39 dias: as ligas europeias têm algo a dizer
O formato novo estica a Copa de 30 para 39 dias. Esses 9 dias extras, de onde saíram?
Resposta: a FIFA espremeu o período de pré-Copa das seleções.
No formato antigo de 32, cada seleção tinha 23 dias de preparação antes da Copa. Em 2026, esse número foi comprimido para 16 dias.
A Associação Europeia de Ligas (EPFL, na sigla em inglês) protestou publicamente em 2024. O argumento central: comprimir a preparação significa menos descanso para os jogadores no fim de temporada, e isso eleva o risco de lesões.
A FIFA respondeu que “estamos estudando soluções”. Dois anos depois, nenhum ajuste específico foi anunciado.
O impacto real disso na Copa de 2026 só vai aparecer depois do apito inicial. Mas alguns clubes já se anteciparam — Bayern de Munique, Real Madrid e Paris Saint-Germain adotaram, no fim da temporada 2025-26, rotações mais rígidas para os jogadores convocados por seleções, justamente para que chegassem inteiros aos treinamentos do início de junho.
Haaland não apareceu na Data Fifa de março da Noruega. O Manchester City justificou como “descanso preventivo”. Todo mundo sabe o que isso significa.
Um detalhe negligenciado: contratos de transmissão
Por que a FIFA faz questão de aumentar o número de jogos de 64 para 104?
Os 40 jogos a mais, multiplicados pelo preço médio dos direitos de transmissão, representam — por estimativa conservadora — entre 1,2 e 1,5 bilhão de dólares a mais para a FIFA no ciclo 2026.
Não é um assunto que a FIFA esconde. O presidente Gianni Infantino disse em 2018, numa conferência, com todas as letras: “A expansão nos permite entrar em mercados que não conseguimos penetrar na última década.”
Esses “mercados” incluem Ásia Central (Uzbequistão, primeira Copa), África (Cabo Verde, primeira Copa), Caribe (Curaçao, primeira Copa), Oriente Médio (Jordânia, primeira Copa). Cada novo país classificado corresponde a um mercado de transmissão inteiro — publicidade de TV, assinaturas de streaming, ativações de patrocinadores.
A receita total da FIFA no ciclo 2026 está prevista para alcançar 13 bilhões de dólares, um salto de 73% em relação aos 7,5 bilhões de 2022. A maior parte desses 73% vem dos novos mercados abertos pelo formato de 48 seleções.
Reforma de formato nunca é só reforma de calendário. É também uma redefinição do mapa comercial.
Daqui a 52 dias, essas regras serão testadas de verdade
Toda a modelagem teórica, todos os cenários da Opta, todas as projeções do mercado de apostas serão substituídos pela realidade no momento em que a bola rolar, às 15h (horário do leste dos EUA) de 11 de junho, no Estádio Azteca, na Cidade do México.
Vamos ver pela primeira vez a operação real de uma Copa de 48 — pode ser que funcione tão bem quanto a FIFA planejou, pode ser que apareçam problemas que ninguém previu.
Alguns momentos que merecem atenção:
27 de junho, último dia da fase de grupos — Haverá vários jogos de grupos diferentes com bola rolando ao mesmo tempo. Como os árbitros vão administrar a dinâmica do “cálculo do saldo de gols” na reta final? Esse será o primeiro teste de estresse real desta edição.
30 de junho, primeiros confrontos dos 32 avos — A primeira rodada de “32 avos de Copa do Mundo” da história. A lógica de cruzamento é complexa; há pelo menos três combinações possíveis de caminhos.
3 de julho, as 8 vagas de terceiro colocado definidas — Se dois terceiros de grupos diferentes empatarem em pontos, saldo de gols e gols marcados, a FIFA terá que recorrer aos pontos de fair play como critério decisivo. Esse cenário já aconteceu em Eurocopas, mas nunca em Copas do Mundo.
Esta Copa vai deixar muitas histórias para trás. Mas o próprio formato também é uma história — uma história que vai precisar de 104 jogos para ser contada por inteiro.
Fontes: comunicado oficial da FIFA sobre o formato da Copa do Mundo 2026; registro da votação do Conselho da FIFA em 10 de janeiro de 2017 sobre o plano de expansão; dados históricos da expansão da Eurocopa de 2016 da UEFA; projeções do modelo da Opta Sports (divulgadas em fevereiro); declaração da EPFL em protesto à compressão do calendário; projeções de receita da FIFA para o ciclo 2026.



